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Sem citar política, Papa faz discurso revolucionário

Papa Francisco - rosto

Uma das grandes habilidades dos grandes comunicadores é a capacidade de quebrar expectativas, apresentando a seu público algo sempre novo, que impacta pela força da surpresa. Em sua chegada ao Brasil, no discurso em presença da presidente Dilma e de outras personalidades políticas brasileiras, o Papa Francisco mostrou que tem esta capacidade de surpreender, de passar uma mensagem nova indo contra as expectativas.

Todos esperavam que este primeiro discurso, feito diante das autoridades políticas, viesse recheado com uma boa carga política, direta ou indireta. Mas Francisco não falou de política. Seu interlocutor não eram os políticos presentes, mas sim o coração do povo brasileiro – ou melhor, o coração de cada brasileiro. Ao fazer isso, não desconsiderou a política, mas elevou-a a um nível quase inimaginável. Falou da maior força que move a história: o coração da pessoa, aquele lugar onde cada um de nós guarda as coisas mais valiosas que tem na vida.

Pedindo para “bater delicadamente” à porta que é o coração de cada brasileiro, mostrou a humildade e o carinho que lhe são próprios. Dizendo “não tenho ouro nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado”, não apenas mostrou a pobreza cristã, mas se colocou na posição corajosa daquele que doa tudo que tem pelo outro. Humildade, carinho, pobreza, coragem, doação de si… Que homem público não se sentirá interpelado por estes atributos? Que cidadão não encontrará aí um caminho para a construção do bem comum?

Partindo do coração da pessoa, o Papa Francisco fez um desafio mudo a todos que querem o poder pelo poder e organizam suas vidas em função disto. E cada um que o ouviu percebeu esta incrível verdade: que o coração é maior do que o poder, pois nos torna realmente humanos, enquanto o poder frequentemente desfigura nossa humanidade.

Francisco começou sua viagem sem falar de política. Mas, não falando de política, fez o discurso político mais revolucionário que poderia ter feito.

Marcelo Ortega, via Facebook

O telecista e a política

Novamente nos encontramos em ano de eleições municipais. Ano em que devemos escolher os representantes do governo mais próximos de nós, que são o prefeito e os vereadores. Aqueles que deveriam, realmente, nos representar: as nossas vontades, as nossas opiniões e defender nossos direitos.

E, como em todo ano de eleições, volta a pergunta sobre qual a posição dos católicos, da igreja e dos movimentos e pastorais em relação à política e aos candidatos.

Nós, do TLC de Avaré, seguimos o princípio do líder cristão, que é ser realmente agente de transformação no mundo, não só como Mensageiros do Evangelho, mas também atuando em diversas áreas da sociedade, entre elas a política.

Posição aliás, não nossa, mas sim da Igreja Católica, como podemos observar em diversos documentos da Igreja:

O Concílio Vaticano II declara na “Gaudium et Spes”:
“Lembrem-se, portanto, todos os cidadãos ao mesmo tempo do direito e do dever de usar livremente seu voto para promover o bem comum. A Igreja considera digno de louvor e consideração o trabalho daqueles que se dedicam ao bem da coisa pública a serviço dos homens e assumem os trabalhos deste cargo” (GS 75).

O Catecismo da Igreja Católica (CIC) insiste:
CIC §899 – “A iniciativa dos cristãos leigos é particularmente necessária quando se trata de descobrir, de inventar meios para impregnar as realidades sociais, políticas e econômicas com as exigências da doutrina e da vida cristãs. Esta iniciativa é um elemento normal da vida da Igreja”.

CIC §2442 – “Não cabe aos pastores da Igreja intervir diretamente na construção política e na organização da vida social. Essa tarefa faz parte da vocação dos fiéis leigos, que agem por própria iniciativa com seus concidadãos. A ação social pode implicar uma pluralidade de caminhos concretos. Terá sempre em vista o bem comum e se conformará com a mensagem evangélica e com a doutrina da Igreja. Cabe aos fiéis leigos “animar as realidades temporais com um zelo cristão e comportar-se como artesãos da paz e da justiça”.

Demonstrada também em diversos posicionamentos da CNBB (Conselho Nacional dos Bispos do Brasil), como o nosso Arcebispo já colocou algumas vezes, inclusive em cursos do TLC.

Infelizmente criou-se entre nós católicos uma cultura perigosa de se afastar da política por ela ser exercida, muitas vezes, por corruptos e imorais. Ora, sabemos que há a boa política e também a politicagem; o político e o politiqueiro. Não podemos queimar a política por causa da politicagem, temos que afastá-los do poder por meio do voto. A Igreja insiste na participação dos fiéis na política.

Temos que oferecer alternativas que julguemos mais merecedoras do nosso voto, nos inspirem confiança e que nos representem. Portanto, é de se esperar e se deseja que cada vez mais leigos católicos se apresentem como candidatos, não para defender os grupos dos quais fazemos parte ou a interesses desta ou daquela pastoral/movimento, mas sim, é o que se espera, sejam pessoas que lutem e prezem pelo bem da população como um todo.

Situação essa que traz à tona outra questão: leigos ativos em suas pastorais/movimentos devem ter cuidado de não fazer uso da “máquina” para auto-promoção, por outro lado não podemos excluí-los de suas atividades paroquiais apenas porque são candidatos. Também devemos estar atentos e saber separar aqueles que sempre tiveram uma vida ativa dentro da Igreja daqueles que se passarão por “filho pródigo” para uma aproximação em momento conveniente.

Para evitar maiores polêmicas e defender verdadeiramente a democracia dentro do nosso movimento, o TLC de Avaré decidiu, em reunião do subsecretariado, do dia 17 de fevereiro de 2012, que não apoiará formal ou informalmente nenhum candidato a vereador ou a prefeito nessas eleições.
Isso não impede, pelo contrário, dá mais liberdade para que todos da coordenação ou membros ativos do TLC divulguem explicitamente seu apoio a quaisquer candidatos, telecistas ou não, católicos ou não. Mas será sempre um apoio pessoal e não do movimento do TLC de Avaré.

Queremos sim, que cada telecista não fique omisso. Que acompanhe de perto as atitudes e o passado de todos os candidatos, para sabermos se eles estão realmente preocupados e agindo conforme nossos anseios. Não repitamos os erros do passado ou troquemos nosso voto por um apoio ou doação ao nosso grupo ou paróquia. Ser cristão ou católico não garante que fulano seja um bom candidato. Deveria garantir que honestidade e caráter, mas às vezes nem isso. Do mesmo modo, o fato, por si só, de certa pessoa ser atuante na igreja, seja no TLC ou em outro movimento, também não é garantia de idoneidade ou competência.

Fique esperto, pesquise, pergunte, saiba escolher. Só não fique indiferente.

Alexandre Custódio

Presidente do subsecretariado do TLC de Avaré

CNBB divulga nota por uma “Reforma Política: urgente e inadiável”

Fé e Política (Canção Nova) 

Os Jovens de hoje não sonham como antes

26 de Julho de 2010

Atualmente as decisões brasileiras sobre o futuro da sociedade não consideram a opinião dos segmentos da juventude, que fica à margem da construção do país. Com pouca expressão e quase nenhum respeito, o brilho e a força dos jovens são abreviados quando  se discute o rumo do nosso povo

No Brasil reside uma grande desmotivação do jovem pela política. Lançamento de carros, motos importadas, games, futebol, meninas, modas, tendências, internet, bandas de rock, bebidas, etc. Essa é a pauta comum e recorrente no diálogo entre a juventude brasileira. Não que isso não seja legítimo, mas isso não pode ser o centro, pela natureza de sensações supérfluas e passageiras.

Natural do meio e da faixa etária, esses assuntos ocupam boa parte do tempo dos jovens que, indubitavelmente, gastam toda sua energia nos prazeres oferecidos pela sociedade moderna. Vão aos cinemas e às baladas, praticam esportes, estudam, encaram aventuras, viajam e criam novas alternativas de diversão e satisfação.

A esperança mora no peito dos jovens brasileiros e um brilho especial os torna capazes de sonhar e buscar a felicidade. Essa riqueza infindável é vital no contexto da condição jovem. É essa força que motiva e leva a juventude a atingir seus objetivos após enfrentar obstáculos aparentemente instransponíveis, menos para os jovens, cuja força e determinação são as engrenagens do rolo-compressor que realiza grandes projetos.

Vejo hoje uma juventude doente, perturbada e desinteressada por assuntos relevantes que influenciam diretamente na vida de toda a sociedade. Um poderoso processo de desmotivação foi criado e a juventude brasileira parece ter caído nessa rede armada pelos donos do poder.

Não está na pauta cotidiana dos jovens o tema política. Lamentavelmente, salvo raras e louváveis exceções, o jovem no Brasil não gosta da vocação pública e prefere se distanciar de tudo aquilo que liga ao assunto. A falta de interesse é tão grande que algumas manifestações parecem demonstrar asco coletivo pela política.

Lembro-me que estudei na faculdade de jornalismo sobre o movimento Tropicalismo. Marcado pela ruptura que sacudiu o ambiente da música popular nos anos sessenta, o tropicalismo usou instrumentos de efeito para protestar através da arte e manifestar a insatisfação juvenil, cujo resultado foi o início de uma série de transformações políticas, éticas e comportamentais que, irreversivelmente, afetaram a sociedade da época.

Os estudantes organizaram passeatas contra a ditadura militar. As canções da época compunham um quadro crítico e complexo do País, uma conjunção do Brasil arcaico e suas tradições, do Brasil moderno
e sua cultura de massa e até de um Brasil futurista.

Irreverente, a Tropicália transformou os critérios de gosto vigentes, não só quanto à música e à política, mas também à moral e ao comportamento, ao corpo, ao sexo e ao vestuário. Em um ano que marcou a eclosão e fechamento de tudo, o movimento não compreendido teve seu final com a prisão de Caetano e Gil logo após a promulgação do Ato Institucional no 5.

Auge do movimento, o ano de 1968 foi um intenso momento de uma revolução que não se socorreu de tiros e bombas, mas da pichação, das pedradas, das reuniões de massa, do alto-falante e de muita irreverência.

Havia sempre a busca pela luta dos ideais, a esperança de que, diante de todo o esforço, se conseguiria mudar e revolucionar. O Tropicalismo foi somente uma das várias inteligentes idéias para se falar, de maneira irreverente, sobre o nosso país, nossos costumes, nossa sociedade, nossa música, nossa arte, sobre nós. O interessante é perceber que, em um ano em que o mundo passava por momentos tão conturbados, havia ainda o sentimento de conquista, de vontade de mudar, de transformar para o bem comum. Nos dias de hoje, em 2010, não se vê luta por nada e a juventude aceita todas as imposições calada e submissa.

Um contraponto à ação intelectual patrocinada pela juventude de 1968 foi a agitação dos “caras-pintadas”, movimento estudantil brasileiro realizado no ano de 1992 que tinha como eixo o impedimento do Presidente do Brasil e sua retirada do poder. O movimento baseou-se nas denúncias de corrupção que pesaram contra o presidente e ainda em suas medidas econômicas e contou com milhares de jovens em todo o país. O nome “caras-pintadas” referiu-se à principal forma de expressão, símbolo do movimento: as cores verde e amarela pintadas no rosto.

O então presidente Fernando Collor de Mello havia chegado ao poder em 1990 sob muitas críticas devido às interferências de grandes organizações empresariais na campanha presidencial. As frentes políticas, lideradas pelo PT e seu candidato derrotado nas eleições, Lula, alegaram na época que os resultados eleitorais foram fruto de manipulação da opinião pública, com participação especial da Rede Globo de Televisão.

A população assistiu indignada a escalada de acusações de Pedro Collor a seu irmão (o presidente) e a Paulo César Farias (conhecido por PC Farias). As principais entidades civis do país (OAB, CNBB, UNE, centrais sindicais, dentre outras) iniciaram o “Movimento pela Ética na Política” no mesmo mês. O escândalo PC Farias torna-se a principal notícia no país.

Veja – O presidente sairá mais rico do governo?
Pedro Collor – Em patrimônio pessoal, sai. Sem dúvida nenhuma. (…)
Veja – O que acontece com o dinheiro?
Pedro Collor – O Paulo César Farias diz para todo mundo que 70% é do Fernando e 30% é dele. (Páginas Amarelas de Veja)

Uma reunião de estudantes aconteceu em 29 de maio de 1992 e chamou a atenção da mídia pelo grande número de pessoas, o engajamento dos participantes e a forte rejeição ao presidente.

A Rede Globo estava passando a minissérie ‘Anos Rebeldes’, de Gilberto Braga, que falava sobre o papel dos estudantes contra a ditadura. O presidente Collor fez um pronunciamento em rede nacional de televisão, pedindo apoio à nação e convocou os brasileiros a vestirem as cores nacionais, verde e amarelo, e sair pelas ruas num domingo, em resposta aos que o acusavam.

Milhares de jovens tomaram as ruas das capitais vestindo roupas negras, e com o rosto pintado na mesma cor, em sinal de luto contra a corrupção. Logo a imprensa noticiou o movimento dos “caras-pintadas”, numa referência a uma insurreição militar homônima. O domingo ficou conhecido como “domingo negro”.

Fora Collor!!! Fora Collor!!!
(
grito de ordem símbolo dos caras-pintadas, gritado e pintado)

A Câmara dos Deputados vota a favor do processo de impeachment. Foram 448 deputados a favor, 38 contra, 23 ausentes, 1 absteve-se. Nesse momento, já não havia apenas estudantes e jovens, mais sim milhões de pessoas. O comparecimento ao Vale do Anhangabaú não teve estimativa oficial. As pessoas pintavam o rosto de verde e amarelo e tinham a certeza da saída do presidente.

Na década de 1960, os protestos eram pela mudança do regime político do país. Já os “caras-pintadas” só queriam a queda do presidente. Foi um movimento que se extinguiu em si mesmo depois de atingir seu objetivo.

O termo “Caras Pintadas” ficou marcado como uma referência dada pela mídia brasileira a uma pequena parcela da população adolescente que foi usada como massa de manobra para um golpe que tirou um Presidente da República do poder.

A diferença entre os tropicalistas e os “caras-pintadas” é que para aqueles havia uma motivação nacional e uma causa nobre e para estes não havia ideal, nem ética e muito menos patriotismo.

As insistentes chamadas na TV Globo convocando os jovens brasileiros de 92 a irem para a rua manifestar seu repúdio contra a corrupção em Brasília, foram o pilar de uma campanha publicitária para derrubar o Presidente, então desafeto político dos diretores da emissora.

Aqueles jovens empolgados não tinham discurso próprio e replicavam o desejo dos poderosos sanguinários donos da grande mídia. De quando em quando a Globo destacava a participação de alguns nas passeatas para promovê-los à heróis. O Congresso Nacional agiu vergonhosamente, sob pressão popular e votou por medo. Deveria votar tecnicamente e eliminar aqueles que promoveram a corrupção como manda a lei, mas não por temor da opinião pública.

Não se pode afirmar, mas os “caras-pintadas” teriam participado de um teatro? Teriam ajudado a um esquema projetado por “gente grande”?

E para os jovens de hoje, qual é a motivação? Qual é a luta? Qual é o ideal?

A juventude de 2010 parece abrir mão dos sonhos e não se preocupa tanto em encontrar seu ideal. Não reclama, não protesta, não demonstra indignação por nada. Silente, se deixa carregar pelo vai e vem da onda sem se incomodar com o barulho. Qual é o significado de uma música estridente em que a letra não transmite nenhum conteúdo?

A cultura alienígena invadiu os quartos fixando cartazes de ídolos distantes e fracos, invadiu as roupas estampando frases em línguas desconhecidas e sem nenhum argumento, invadiu a mente introduzindo sentimentos complexos atrelados à relatividade das coisas, tão difundida nos dias de hoje justamente para confundir e manipular.

A permissão desorientada da influência externa deixou nossa juventude frágil e por isso aceita, com espírito servil, a ideologia esquisita que chegar mais rápido, vinda quase sempre pronta de outros países.

Já vi jovens mudarem de opinião muito facilmente por conta da interferência externa. Já presenciei a desmotivação e o desinteresse de muitos por valores que dão sentido para a vida.

O mundo de hoje, cercado por um sistema que promove o consumismo e o ter imediato, tem fechado as portas para o idealismo.

Continuo acreditando na força jovem e sei que ainda verei inúmeros exemplos de luta, de coragem e de entusiasmo por uma causa que faça a vida valer à pena…

Marcelo Ortega

(com pesquisa)